Todas as vezes que participo de um treinamento, congresso ou evento que me instiga e 'alimenta a alma', saio impactada, energizada e com a mente inquieta... E, dando asas a essa inquietude e ao impulso de criação, nasce o Insights de RH, com o objetivo de compartilhar conhecimentos e aprendizados adquiridos ao longo da minha carreira. Espero que gostem deste convite ao 'pensar diferente', que nos leva à construção de novos caminhos em nossa sociedade.
No dia 22 de maio participei do Flash Humanidades, evento anualmente realizado pela Flash, e que nos convida a refletir e a debater o papel das relações humanas nos ambientes corporativos. Este ano tivemos a oportunidade de ouvir a Esther Perel, uma das vozes mais influentes do mundo em comportamento humano e cultura organizacional. E aqui compartilho os insigths que nasceram de sua fala pontente e provocadora.
Sobre Nossas Relações…
Esther Perel é psicóloga intercultural, ou etnopsicóloga, que estuda os relacionamentos entre culturas, como eles mudam e como as revoluções tecnológicas os influenciam. Ela atua como terapeuta, tem vários livros publicados, um podcast sobre terapia, aconselha empresas sobre relacionamentos, mas, no fundo, se vê como uma “estudante e viajante curiosa”. “Vou conversar com vocês e dizer o que penso, mas acho muito importante — especialmente em um mundo com tantas novidades — reconhecer com humildade que, embora eu soe muito confiante, na verdade, não tenho certeza de nada. Meu espírito é de busca constante...”
Durante sua fala, muitas vezes intrigante, incisiva, mas também engraçada, ela se diz especialmente interessada nos quartos e nas salas de reunião. “Acho que a sexualidade é uma lente imprescindível para compreender a humanidade.”
Para ela o trabalho e a vida pessoal se tornaram dois dos centros mais importantes aos quais recorremos para atender nossas necessidades existenciais, especialmente à medida que a secularização se torna mais presente nas sociedades ocidentais e que as estruturas comunitárias se enfraquecem. Passamos a nos voltar para o trabalho e para os relacionamentos.
Sobre o Ambiente...
Para Esther, todos nós vamos ao trabalho com dois currículos. O currículo oficial, que mostra nossa carreira, onde estudamos e trabalhamos. E o currículo não oficial, que muitas vezes contém as experiências que realmente moldaram quem nós somos — aí entram nossos relacionamentos, e trajetória de vida. Para ela “quando chegamos ao trabalho, ocorre uma superposição entre o sistema de relacionamentos que levamos para o ambiente profissional e o sistema familiar de origem, da nossa história.”
Então, quando dizemos que devemos levar nosso "eu completo" para o trabalho, a autora acredita que já fazemos isso, a diferença é que nem sempre fazemos conscientemente. Portanto, não existiria uma diferença fundamental entre a pessoa que vai trabalhar e aquela que se relaciona com amigos, familiares e assim por diante.
Para Esther o ambiente ao qual frequentamos pode diferir ente as pessoas, mas o sistema ao qual somos expostos permanece entre as diferentes culturas. Ela traz como exemplo a diferença de ser criada com base na “lealdade e interdependência”, ou com base na “autonomia e autossuficiência.”, e como isso impacta a forma como conduzimos nossas relações.
Segunda a autora, se a pessoa foi criada com foco em lealdade e interdependência, o sistema nos leva a pensar nos outros, a colocar suas necessidades em relação às necessidades alheias. Como se você não se afirmasse individualmente da mesma forma, pois tem um pensar coletivo — como se os problemas das outras pessoas, também fossem seus.
Agora, se a pessoa foi criada com foco em autossuficiência e autonomia, ela aprendeu que precisa se cuidar sozinha, que só pode confiar em si mesma, que ninguém faz tão bem quanto ela mesma. E provavelmente será a pessoa que irá fazer mais no ambiente de trabalho, simplismente porque acredita que ninguém faz tão bem quanto ela.
Esther explica “nossa história de relacionamentos faz parte do "currículo" que levamos ao trabalho, e ela está presente onde quer que a gente vá.”
Em muitas culturas tradicionais, segundo a autora, o seu nome era “filho de”, “filha de”. Conhecíamos uma pessoa por causa da linhagem, e ou do seu legado. As pessoas não te perguntavam primeiro “o que você faz?”, mas sim: “de quem você é filho?”
Hoje, para a autora, o trabalho é definidor da identidade. Então, quando a pessoa é demitida, muitas coisas acontecem:
Primeiro, você nem sempre quer sair — assim como nem sempre quer um divórcio;
Segundo, qual é a vergonha associada ao fracasso?
Terceiro, qual é a sua responsabilidade de sustentar as pessoas que dependem de você?
Pontos para refletirmos e perguntas para respondermos com calma... E que me lembraram de momentos em que me apresentei com meu “sobrenome organizacional”.
Sobre o Futuro do Trabalho...
Para a autora não é mais “o futuro”, pois este está acontecendo agora.
Na historia da humanidade, sempre houve grandes revoluções, com grandes mudanças em nossa sociedade e que trouxeram incertezas. E quando essas incertezas ocorrem em alta velocidade, segunda a autora, “a sociedade se fragmenta, se polariza”. E essa polarização surge porque há reações binárias intensas. “Reações binárias significam que alguns dizem: Isso é a melhor coisa que já aconteceu, é maravilhoso. E outros dizem: Isso é perigoso, é assustador, precisamos conter.”
“Minha resposta aqui será muito humilde, porque ninguém pode prever de fato o que virá. Os otimistas acham que isso é a melhor coisa que já aconteceu. E o restante das pessoas está se perguntando o que está acontecendo. Participo de muitos eventos, debates com futuristas, apresentações onde as pessoas aplaudem — e eu penso: “Elas estão aplaudindo a própria extinção.” É um enorme caso de negação coletiva. – Esther Perel
Para a autora, o nível de divisão entre essas visões de mundo — entre os otimistas e pessimistas — é enorme. É como se fossem duas realidades paralelas. E é impossível estar totalmente de um lado ou do outro.
Esther conclui afirmando que o trabalho não se trata apenas de pensar em eficiência e otimização. Ela comenta “Eu ia fazer uma palestra este ano no South by Southwest (SXSW – maior evento de inovação e tecnologia do mundo, que acontece anualmente em Austin-TX), e iria entrevistar Peter Attia, um dos grandes nomes da longevidade. E eu dei o título de: “Por que você quer viver mais se sua vida está em desordem?” Porque uma coisa é querer viver mais, mas... para quê? A longevidade no trabalho também é uma forma de otimização, certo? Mas o que eu tenho pensado cada vez mais são em questões de identidade, pertencimento, segurança, comunidade e resiliência coletiva. Acho que isso está no centro dessa conversa sobre comunidade — é uma parte essencial disso.”
Sobre o Pertencimento...
Para Esther, a maioria dos países ocidentais, especialmente no setor corporativo, existe hoje uma espécie de “moratória” de 10 anos entre o fim da vida escolar e o início da vida familiar — seja qual for o formato de família. “Isso porque as pessoas costumavam se casar no final da adolescência, e agora se casam, ou se comprometem, no final dos 20 ou começo dos 30 anos. Isso significa que há uma década inteira em que o trabalho se torna o centro de todas as nossas necessidades: financeiras, sociais, comunitárias, existenciais.”
E hoje, ao contrário, recorremos ao trabalho para suprir todo tipo de necessidade. Para a autora, essa ideia de que queremos sentir um senso de pertencimento no trabalho é uma novidade. “Na verdade, é algo que passou a parecer normal porque repetimos tanto que começa a soar como se sempre tivesse sido assim — mas não é. O pertencimento era algo que você encontrava na sua igreja, na sua comunidade — não no seu trabalho.”
Esther explica que o pertencimento é um dos pilares, que algumas pesquisas têm identificado como fundamentais no ambiente de trabalho. A pesquisa que ela conduziu, no entanto, além do pertencimento também trouxe outros três pilares essenciais da importância relacional no trabalho:
Confiança - é a crença mútua de que as pessoas agirão com integridade, mesmo diante da incerteza, da vulnerabilidade ou da discordância.
Pertencimento - é a relação entre o indivíduo e um grupo — uma empresa, uma equipe, algo maior do que o eu.
Reconhecimento – valor atribuido a você, o respeito e o reconhecimento do seu valor.
Resiliência coletiva - envolve relações de confiança, cooperação e um senso de propósito compartilhado. Trata-se de como o grupo, como sistema, responde aos desafios sem se desintegrar, e muitas vezes saindo deles mais forte.
Sobre Atrofia Social...
Atrofia social é a perda progressiva das habilidades de convivência, interação e cooperação com outras pessoas, causada principalmente pela falta de contato humano espontâneo e presencial.
Assim como o corpo atrofia quando não se movimenta, nossas competências sociais também se enfraquecem quando não são exercitadas regularmente — por exemplo, em espaços públicos, conversas informais, conflitos cotidianos, negociações e atividades coletivas.
Esther trouxe em sua fala analogias sobre os espaços que perdemos ao longo do tempo, como brincar livremente na rua (espaço essencial para desenvolver habilidades sociais) e os anos de isolamento social devido a pandemia, que reverberam até hoje. Ela relata “a maioria dos meus colegas — terapeutas em Nova York — não atende mais pacientes presencialmente. Falam de somática, mas nunca veem um corpo. Nos Estados Unidos, 74% da comida feita em restaurantes não é mais consumida no restaurante. Entende o que isso representa? Isso significa que as pessoas pedem comida para levar — e nem sempre porque há uma festa com 10 amigos esperando em casa.”
“Alguém me disse hoje: “If you have nobody, you have no body.” — “Se você não tem ninguém, você não tem um corpo.” Entende? Com o tempo, se você deixa de ter corpo, também deixa de ser alguém.” – Esther Perel
Ela continua “hoje, não precisamos mais sair de casa para trabalhar, para comer, para fazer compras, para fazer exercício, nem mesmo para conhecer pessoas. E não se trata apenas de solidão, mas de isolamento autoimposto.”
Para ela a combinação de atrofia social, solidão e isolamento autoimposto está criando um tipo de ser humano muito diferente do que conhecíamos. E aí somamos a isso a inteligência artificial... Que traz ainda mais complexidade para as relações humanas.
Sobre IA...
Esther afirma que a parte essencial nos relacionamentos é lidar com a subjetividade do outro. Assim, a atrofia social não significa apenas perder habilidades sociais; significa perder a capacidade de se relacionar com outra subjetividade.
Como sabemos, esses dispositivos de IA são, na maioria das vezes, previsíveis, perfeitos e focados na satisfação contínua, e sem atrito.
O que estamos vivenciando atualmente não apenas transforma nossa interação com as novas tecnologias, mas também redefine nossas expectativas em relação aos vínculos interpessoais. Ao assimilarmos a "perfeição algorítmica" proporcionada por sistemas de inteligência artificial e plataformas digitais, passamos a esperar que as pessoas ao nosso redor correspondam constantemente a esses padrões ideais.
Consequentemente, diante de situações de tensão, insatisfação ou frustração, tendemos a nos sentir paralisados. Esse fenômeno contribui para o que a autora descreve como uma atrofia social emergente.
Sobre Diversidade...
Esther descreve que as relações hoje estão limitadas a família ou com um núcleo pequeno. Além das comunidades online, com quem compartilhamos ideias, aspirações, ideologias… Nesse contexto, passamos a maior parte do tempo com pessoas que pensam exatamente como nós e perdemos o hábito de ouvir opniões diferentes das nossas.
Contudo estamos perdendo o que a autora chama de nível intermediário, onde costumávamos encontrar pessoas diferentes, mas com quem compartilhávamos uma preocupação ou interesse em comum. A biblioteca, escola, vizinhança e praças eram espaços onde as pessoas se viam obrigadas a negociar e onde aprendíamos sobre tolerância.
E com isso, percebemos menor abertura e tolerância para o que é diferente da minha visão de mundo, ou da visão do meu grupo. E a tendência é diminuirmos também nossa aceitação e respeito a diversidade.
Para Esther, quando perdemos esse espaço de prática da tolerância — como a rua, por exemplo — o que se gera é mais polarização.
“A polarização acontece quando não conseguimos sustentar a complexidade de uma situação. E os grandes temas deste momento — o futuro do trabalho, o futuro da vida — são questões complexas. E questões complexas sempre contêm contradições.” – Esther Perel
Sobre Sustentar Polaridades...
Segundo Eshter, quando estamos sozinhos diante de uma questão complexa, precisamos sustentar as contradições dentro de nós mesmo. Mas quando estamos em um grupo — numa equipe, numa empresa, numa sociedade — e polarizamos, o que acontece é que escolhemos um lado da polaridade e atribuimos o outro lado ao outro grupo. Assim, você não precisa mais lidar com a complexidade interna, mas nos colamos em um embate, a cultura do “nós contra eles”.
Esther continua “existe uma parte tóxica nos conflitos quando o foco não é em ser sábio, mas em estar certo, em ter vencedores. Polarização é a rejeição da complexidade do todo. É projetar um polo da questão em cima do outro — geralmente em cima de outro grupo.”
Sobre Liderança...
O que é liderança, afinal? Esther falou de forma brilhante sobre o que é liderar quando estamos vivendo momentos de grande incerteza, com a necessidade de criar não só produtividade, mas uma cultura de cuidado e apoio. Para ela, esse não é o momento de compartilhar uma grande visão. Lideranças em tempos de crise precisam criar um espaço seguro onde as pessoas possam sentir a ansiedade, que é absolutamente normal, diante da incerteza.
A liderança deve criar, segundo a autora, um espaço de contenção, que deve conter: estrutura, clareza e reasseguramento.
Enquanto pessoa líder, num momento de crise, você não diz “Eu tenho tudo sob controle e sei todas as respostas.” Porque segundo a autora “ninguém confia em uma pessoa líder que finge saber tudo… e claramente não sabe nada.”
Sobre Saúde Mental...
Para Esther este é um assunto importante que não deve ser tratado pelas empresas apenas como uma questão de compliance. Para ela, o que estamos vivendo no Mundo e no Brasil não se trata de uma crise de saúde mental, e sim uma crise do atual modelo de sociedade no qual estamos inseridos, e que os efeitos sobre a saúde mental são consequências desse problema que é muito maior.
“Todo mundo fala de uma “crise de saúde mental”, mas isso pode ser uma forma de evitar falar sobre a crise social que estamos vivendo. Hoje, sentir ansiedade é normal. Seria estranho se não tivessemos ansiedade, mas isso também não significa que precisamos ficar deprimidos. Não podemos ignorar que a saúde mental foi reduzida a um monte de sintomas, porque é mais fácil falar sobre ansiedade do que sobre medo (causa raíz). É mais fácil falar sobre depressão do que sobre angústia existencial (causa raíz).” - Esther Perel
Segunda Esther, é mais fácil transformar em “problema de saúde mental”, porque assim temos uma solução rápida para o problema, em vez de termos que lidar com mudanças estruturais reais em nossa socidade. Contudo, a causa raiz do problema continua: medo e individualismo.
A autora explica “Individualismo, no sentido de que o peso da pessoa ser “eu mesma” nunca foi tão grande. Hoje, todas as decisões recaem sobre o indivíduo — o que significa que a pessoa precisa carregar todas as consequências, toda a responsabilidade.”
E, somado a isso, a solidão em tempos de hiperconectividade não é sobre a ausência de pessoas, segundo a autora, é o que chamamos na saúde mental de “perda ambígua”. Este é um conceito criado por Pauline Boss, psicóloga, ao descrever um luto que não pode ser resolvido.
Para exemplificar o conceito de “perda ambigua”, Esther trouxe dois exemplos:
Quando alguém tem demência ou Alzheimer, a pessoa está fisicamente presente, mas emocional e psicologicamente ausente.
Por outro lado, há situações em que alguém está fisicamente ausente, mas emocionalmente muito presente, como em casos de aborto espontâneo, desaparecimento, sequestro, e missões militares.
Para ela, em ambos os casos, você não sabe se a pessoa ainda está aqui ou não, e é assim que vivemos hoje. Isso cria uma situação em que estou fisicamente presente, mas não estou realmente aqui. Essa perda ambígua gera a sensação de uma intimidade artificial: a pessoa deveria estar se sentindo conectada, mas, na verdade, está cercada de pessoas e sente uma espécie de perda.
Segundo Esther, é uma perda incoerente, confusa. E isso acontece no trabalho, acontece nas relações sociais, e é uma das características mais importantes do burnout hoje.
Esther é incisiva ao defender que a saúde mental é um assunto sério, e que estamos enfrentando uma série de questões muito complexas. Mas em vez de lidar com as questões difícies, nós as simplificamos, seguindo a abordagem tecnológica que “adora transformar dilemas existenciais profundos em uns e zeros.”
O que precisamos, defende a autora, é um retorno as relações humanas. E aqui as empresas podem contribuir e muito, encontrando formas de ajudar as pessoas a se relacionarem, se conectarem na vida real, e construirem confiança. A mensagem dela foi clara “prestem atenção nas pessoas colaboradoras”.
E aqui finalizo este compartilhamento, que explourou apenas a primeira parte deste evento que durou cerca de 1h, e que me trouxe reflexões profundas e deixou aquele gostinho de “quero mais”.
Até o nosso próximo encontro. 😉
