Em Junho eu tive a oportunidade de participar da sessão virtual de kick-off do prestigiado Global Peter Ducker Forum que acontece anualmente em Viena e que este ano, em sua 17ª edição, abordará o tema: “The Next Management – Reframing management for the 21st century.”
A sessão que durou cerca de 1h e contou com a participação de Johan Roos, Tony O'Driscoll e de Brian Solace trouxe teorias, discussões ricas e com propósito, sobre o que precisa mudar na forma como gerenciamos e lideramos pessoas. Sai do encontro com muitas reflexões e insights, mas também com um novo olhar sobre como estamos avançando ou não, no correto uso da IA em nossas organizações.
E hoje quero compartilhar com vocês a fala poderosa do Brian Solace, Head Global de Inovação da ServiceNow, e escritor de nove best-sellers. Ele se autodenomina um futurista digital e traz a perpectiva da antropologia para o debate, analisando como as pessoas evoluem e trabalham e como entendemos os seres humanos durante esses processos.
Silicon Valley
Brian Solace começou explicando que estava no Vale do Silício, a cerca de 50 km ao sul do que chamam de “Cerebral Valley”, que é o coração da revolução da IA. Ele dedica boa parte do tempo com empresas de todos os portes, do mundo inteiro, e com empreendedores e fundadores, para entender suas mentalidades nessa revolução da IA — porque na visão do autor eles têm uma forma completamente diferente de pensar e abordar o design de negócios quando comparados às organizações tradicionais.
Nas conversas com esses executivos, segundo o autor, o tema que mais surge sobre a próxima geração de liderança é que as decisões sobre o futuro da IA não são decisões sobre a próxima geração de líderes e sim sobre a antiga forma de liderar. Ele explica “vemos a inteligência artificial sendo tratada como um mecanismo para melhorar o que foi feito ontem, em vez de reimaginar o que poderíamos fazer amanhã. Como resultado: redução da força de trabalho.”
Brian S. nos lembrou da famosa conversa entre Steven Bartlett, que apresenta o podcast Diary of a CEO, e o “padrinho da IA” Geoffrey Hinton. Nessa conversa eles narram a história de uma empresa que, com a IA, reduziu sua força de trabalho de 7.000 para a meta de apenas 3.000 pessoas. Ele explica que esse raciocínio (digamos, ultrapassado) parte da premissa que o modelo de negócio só prosperaria ao reduzir, em vez de perguntar quais “novas oportunidades são necessárias para prosperar num futuro em que a IA também destrava capacidades que antes não existiam.”
Na visão de Brian S., mesmo existindo manchetes como no The Economist, em que vemos certos exageros, “O que aconteceu com a revolução da IA?”, e em outras publicações que questionam se há excesso de expectativas em torno da IA, o autor acredita que não há. Para ele ainda não há hype suficiente sobre o potencial da inteligência artificial, e essa sim é uma conversa que vale a pena ter.
Na empresa em que ele atua, ServiceNow, Brian S. conduziu uma pesquisa entitulada AI Index. Ele vem estudando há 2 anos, o nível de maturidade das empresas em relação à inteligência artificial e para onde vão seus investimentos. Pilares que ele acredita serem fundamentais foram analisados, como governança, liderança, estratégia e visão, além de governança de dados. E no último estudo publicado em Maio de 2025, foi descoberto que o índice de maturidade no uso da IA caiu entre 2024 e 2025 (a nota média caiu de 44 para 35 - numa escala de 100), mostrando que as empresas regrediram.
E a razão para isso, na visão dele, é simples: “basta lembrar que a IA generativa chegou ao mercado em novembro de 2022 e, apenas 3 anos depois, já estamos falando em agentes de IA. É tanta coisa, mudanças tão rápidas e tão profundas que os tomadores de decisão estão recuando e se sentindo sobrecarregados. Estão tentando reimaginar o que precisa ser feito para avançar de forma mais produtiva e eficiente.”
O potencial da inteligência artificial
Segundo Brian S., ainda assim, quando ele conversa com os tomadores de decisão e com as pessoas colaboradoras dessas empresas, o que ele percebe são lacunas interessantes e que são comuns em qualquer revolução. Há uma lacuna entre a visão da liderança sobre o que a empresa pensa que está fazendo e a percepção das pessoas colaboradoras sobre o que realmente acontece no dia a dia.
Os CEOs acham que a empresa tem uma estratégia clara para a IA, que há um alto nível de conhecimento e que a adoção da IA está muito mais avançada. Já as pessoas colaboradoras dizem que não há estratégia definida, que o conhecimento e a implementação são baixos e que a visão para o futuro não está clara.
Para o autor o que está acontecendo, de modo geral, é a falta de uma visão mais ambiciosa, para ele estamos repetindo o que sempre fizemos com outras revoluções tecnológicas: estamos usando a IA apenas para fazer o que fazíamos ontem, mas de forma mais eficiente.
Só que segundo Brian S. essa tecnologia é diferente...
“A IA nos permite fazer o que nunca conseguimos fazer antes. A questão é: o que poderíamos fazer que nunca fizemos? O que nunca imaginamos que poderíamos? Esse é o ponto que as empresas tradicionais têm dificuldade de ver. Elas não fazem a uma boa gestão da mudança, e tem dificuldades para inovar.”
Ele menciona que no Vale do Silício, o que acontece é extamente o oposto dessa forma de pensar e agir...
“Os empreendedores, os sonhadores, os criadores perguntam exatamente isso — O que nunca imaginamos que poderíamos fazer? — e exploram o desconhecido para torná-lo tangível e sistemático. Eles acabam descobrindo oportunidades que criam uma vantagem competitiva que obriga as empresas tradicionais a reagir. O maior risco, portanto, não está em como adotar a IA. O maior risco é não tomar decisões rápido o suficiente, não pensar diferente e não sonhar grande.”
Como mudar a mentalidade da liderança
Nos últimos quatro anos, Brian S. esteve focado em como mudar a mentalidade da liderança, e não apenas em relação à IA. Ele relata que durante este período tivemos desafios econômicos, sociais, a polarização da sociedade e a pandemia global. E tudo isso mostrou que precisamos pensar diferente.
E foi por essa razão que ele escreveu o livro Mindshift, para ajudar as lideranças a começarem mudando a si mesmas, a fazerem perguntas diferentes e explorarem novas possibilidades. A sugestão do autor pra a próxima geração da liderança é: “vamos continuar fazendo o que funciona bem, mas vamos também priorizar o que nos ajuda a atingir nossos objetivos. E, para isso, precisamos ter uma visão clara para o futuro da empresa e entender que novas ondas da IA virão pelo caminho.”
Ele menciona que precisamos priorizar os investimentos em duas frentes:
IA otimizada — melhorias que resolvam problemas reais, que agilizem fluxos de trabalho e aumentem a produtividade.
IA inovadora — que nos ajude a inventar novos produtos, novos serviços e novos modelos de negócio que antes eram impossíveis.
Para o autor precisa haver um equilíbrio entre a otimização e inovação:
"Esse equilibrio criaria um delta: a distância entre o que fazemos melhor e o que nunca fizemos antes. E esse delta é a própria definição de disrupção — o presente que damos a nós mesmos para nos reinventarmos.”
Como ser uma empresa realmente orientada para a IA?
Segundo Brian S. ainda não desenhamos os empregos do futuro porque ainda não conseguimos visualizar as novas oportunidades que a IA nos traz. Também não analisamos nossa força de trabalho contra essa visão.
“A verdadeira transformação depende de reimaginar o conhecimento do trabalhador do conhecimento com a IA e se abrir para desaprender o que nos prende ao ontem. Somente assim conseguimos inovar e nos tornar empresas que criam novos fluxos, novos resultados e novos patamares de valor.”
Brian S. concluiu sua fala com um convite especial: que nos reencontremos em novembro, no Global Forum Peter Drucker, em Viena. Ele nos instigou a estar lá para, juntos, debatermos e reimaginarmos o futuro dos negócios, explorando novas tendências, trocando experiências e aprendendo com grandes nomes globais.
E você? Assim como eu, também ficou com aquele gostinho de “quero mais”, e com vontade de embarcar para Viena para beber direto da fonte das melhores práticas e insights sobre o futuro das organizações?...
Enquanto nossos sonhos não se realizam, prometo voltar em Julho com mais Insights de RH.
Até breve.
