Liderança no Mundo da Multidestria: Estamos Preparados?
Estamos vivendo um momento único na nossa história. O mundo moderno — previsível, hierárquico, linear e controlável — convive, cada vez mais, com o mundo contemporâneo — múltiplo, colaborativo, arriscado e horizontal. Nesse entrelaçamento, surge um dilema inevitável: como navegar entre os paradoxos, entre a verticalidade da hierarquia e a horizontalidade da influência?
Este foi o tema da nossa última reunião do Clube CHRO Exame e Saint Paul Escola de Negócios, quando tivemos a oportunidade de escutar a fala brilhante do José Cláudio Securato CEO da Exame Educação e da Saint Paul Escola de Negócios.
Como nos questionou J.C. Securato: “Será que estamos prontos para lidar com a chamada ambidestria e, mais ainda, com a multidestria? Ou estamos insistindo em fórmulas que pertencem a um mundo que já não existe mais?”
Mas minha proposta não é trazer respostas, mas sim perguntas, reflexões e inquietações, pois são essas que nos ajudam a mudar a nossa forma de pensar e de perceber o mundo ao nosso redor.
A tensão entre o vertical e o horizontal
Na liderança vertical, o cargo fala antes da pessoa. O título carrega consigo o peso da autoridade: “sou CEO, sou CFO, sou CHRO”. Essa posição, inevitavelmente, carrega traços de comando e controle. Já a liderança horizontal exige algo muito mais difícil: influência sem patente, respeito sem hierarquia, confiança sem imposição.
O que é mais desafiador: mandar ou engajar? Impor ou inspirar?
Será que a alta liderança está preparada para abrir mão de privilégios invisíveis e navegar em um mundo em que a lógica é imprevisível e múltipla?
Entre a razão e a sensibilidade
Durante séculos, nossa sociedade e a convivência humana foram organizadas com base em referências externas e verticais:
A natureza (hierárquica, rígida, forte).
O divino (um Deus acima de tudo e de todos).
A razão (ciência, lógica, previsibilidade).
Hoje, estamos diante de um salto sem referência vertical. Mas para J. C. Securato, "vivemos em um mundo em que não há transcendência clara — nem natureza, nem divino, nem razão são guias absolutos. E, nesse vazio, emerge um espaço: o indivíduo, com sua singularidade e subjetividade."
Se o mundo moderno nos ensinou a pensar, será que o mundo contemporâneo nos pede para sentir? Se a inteligência artificial processa dados com velocidade exponencial e precisão infinitamente maiores do que nós, não seria hora de cultivarmos aquilo que a máquina não tem: sensibilidade, empatia e consciência?
O desafio da multidestria
É verdade que o mundo diverso, criativo e flexível é fascinante. Mas segundo J.C. Securato, “você gostaria que o engenheiro responsável pela turbina do avião fosse “criativo e flexível’”? Provavelmente não. Na turbina queremos padrão, rigor e controle.”
É aqui que surge o dilema da multidestria: como líderes, precisamos operar em diferentes lógicas ao mesmo tempo. Num mesmo dia, podemos exigir previsibilidade em um processo regulatório e, ao mesmo tempo, fluidez e ousadia em um projeto de inovação.
Estamos formando líderes preparados para navegar nessa complexidade e gerir o caos?
Ou ainda educamos — escolas e famílias — como se vivêssemos no século XIX, em busca de padrões estáveis em um mundo cada vez mais instável?
Problemas que não se resolvem
Se o mundo moderno era o dos problemas simples e complicados (resolvíveis com metodologias e benchmarking), o contemporâneo nos trouxe os problemas complexos e caóticos — aqueles que não têm solução definitiva, apenas formas de lidar ou conviver com eles.
Será que estamos prontos para liderar em contextos sem resposta?
Como cultivar a humildade intelectual em um ambiente que ainda valoriza certezas?
O que precisamos cultivar
Talvez a chave esteja em resgatar algo que ficou à margem do mundo da razão: o campo do sentir. A empatia, a confiança, o respeito, a admiração. O elo humano que conecta engrenagens distintas.
E como mencionado por Camila Tafarello Securato, PhD , “esse elo não precisa ser de amizade, mas sim de respeito e admiração”. A dinâmica de trabalho precisa girar e facilitar a potência de cada um, gerando confiança.
Se a inteligência artificial já pensa melhor do que nós, cabe a nós recuperar o que é mais humano: a sensibilidade.
Se o mundo moderno foi guiado pela razão, será que o mundo contemporâneo só sobreviverá pelo equilíbrio entre razão e emoção, objetivo e subjetivo, vertical e horizontal?
E agora, para onde vamos?
Estamos diante de perguntas que desafiam nossas certezas:
Como liderar em um mundo que não tem mais uma única referência vertical?
Como formar líderes capazes de transitar entre a rigidez necessária e a flexibilidade inevitável?
Estamos educando para o século XXI ou ainda para o século XIX?
E o mais instigante: será que o verdadeiro diferencial humano, no futuro, não será o sentir mais do que o pensar?
Como destacou Mafoane Odara durante a sessão, citando Adam Grant : se ‘conhecimento é poder’, então ‘saber o que você não se sabe é sabedoria’.
E talvez seja justamente essa sabedoria, a coragem de não saber, a habilidade mais importante para liderar o futuro.
