O Sentido da Pergunta

Reflexões inspiradas na reunião do Grupo GRH Rio, na COPPEAD, onde pudemos discutir e ouvir os brilhantes Paula Chimenti e André Luís da Fonseca a respeito de como a IA pode e já está transformando radicalmente o mundo do trabalho e nossas vidas.

Há algo profundamente humano em fazer perguntas. O ato de perguntar é o início de qualquer transformação, é a busca por sentido. E é justamente o sentido que conecta o humano à inteligência artificial.

Quando fazemos uma pergunta, não estamos apenas buscando uma resposta literal, mas provocando a criação de significado. A IA, por sua vez, também opera a partir de perguntas e respostas, mas num nível matemático, quase invisível ao olhar humano.

Em 2013, um artigo do Google revolucionou a forma como as máquinas compreendem a linguagem: mostrou que palavras poderiam ser transformadas em vetores, que ocupam posições num espaço multidimensional. Ou seja, a linguagem, uma das expressões mais humanas, passou a ser traduzida em matemática. Assim nasceu uma nova forma de inteligência: a IA que calcula sentido, independentemente do idioma. “Amor”, “love” ou “amore” passam a ocupar coordenadas próximas, porque compartilham significado.

A conta agora é feita com o sentido, e não com as palavras.

Essa transformação nos convida a olhar a tecnologia não apenas como ferramenta, mas como extensão da mente humana (Andy Clark & David Chalmers, 1998). Como escreveu Umberto Eco, a tecnologia é amoral — ela não é boa nem má em si; depende da intenção de quem a usa. A questão essencial, portanto, não é o que a tecnologia pode fazer, mas o que nós, humanos, podemos ou queremos fazer com ela.

Estamos diante de uma encruzilhada civilizatória: queremos continuar operando na lógica da escassez (tempo escasso, oportunidades escassas, conhecimento escasso) ou ousamos migrar para uma lógica de abundância, onde o acesso ao saber e à colaboração se expande graças às máquinas?

Nesse novo paradigma, o RH ganha um novo H: o de híbrido (Paula Chiment & Andre Fonseca, 2026). Pessoas e máquinas coexistem, aprendendo uma com a outra. A IA não substitui o humano — ela o amplia. O desafio não é apenas desenvolver algoritmos, mas cultivar consciência.

Humanos aprendendo com máquinas, e máquinas potencializando o conhecimento humano, eis o futuro do trabalho, o qual todos buscamos entender.

No entanto, os dados da Gartner mostram que, até agora, a IA não aumentou a produtividade de forma significativa. Isso não é um fracasso tecnológico, mas um lembrete de que a produtividade não nasce apenas do cálculo: ela nasce do pensamento, da criatividade, do propósito.

O cognitivo humano — o que interpreta, conecta, imagina — continua sendo a peça central desse sistema híbrido.

Por isso, talvez estejamos assistindo não ao fim das profissões humanas, mas ao seu renascimento. Carreiras que unem empatia, julgamento ético, visão sistêmica e aprendizado contínuo serão cada vez mais valiosas.

A tecnologia não nos reduz, ela nos convida a crescer.

Ser humano, neste século, é aprender a fazer sentido — com e através das máquinas.